Nem todo dia queremos ser mãe

Eu não queria escrever sobre isso porque assusta as pessoas, mas eu recebo muita mensagem pedindo esse assunto na vida. Como não falar? Ou melhor, como falar? O que era para ser uma resposta para uma pergunta de uma moça que me mandou mensagem, virou um auto consolo, escrito de mim para mim mesma.

Eu não sabia como introduzir o assunto, até que a série Merlí (Netflix sempre presente), me deu a deixa. Resumindo – SPOILER – tem uma personagem que tem filho e ela tem só 18 anos. Ela é muito criticada por largar o filho com os outros. Até que uma hora ela desabafa, vou por dois momentos dela falando na série e vou comparar com a minha experiência como mãe.

“O filho não é um problema. Mas ser mãe, sim.”

Eu nunca quis ser mãe, nem sei se quero ser de novo um dia na vida. Porque quando eu pego o filho dos outros no colo eu sempre penso que seria legal ter outro, até pensar bem no que é ser mãe e criar uma criança e aí eu penso que já estou completa com a Isabela. Minha filha é a melhor pessoa que eu já conheci, eu não me imagino em um mundo que ela não exista. Mas eu não gosto de ser mãe pelo papel da maternidade, eu gosto de ser mãe da Isabela. Sempre que concluo isso, eu sei que não seria mãe novamente. Quando concluo isso em voz alta, as pessoas me julgam, como se essa decisão as afetasse ou me fizesse amar menos a Isa. Nada muda, o amor não diminui, a criação não fica melhor ou pior. Quando uma mulher decide não ter filhos ou não ter mais filhos, tudo permanece igual no Planeta Terra e na vida dos outros que não estão envolvidos nessa relação.

Eu vejo muitas mães se justificando e explicando para os outros o quanto elas amam seus filhos. A sensação que dá é que estamos proibidas de ficar de saco cheio porque isso implica diretamente na nossa qualidade. Eu fico bem brava com isso, não temos que perder tempo explicando o que sentimos, nós sabemos a real. Nossos filhos sabem a real. Se alguém de fora não sabe, não muda nada. Pra quê se explicar para os outros? O amor de mãe é gostoso demais para transformar em algo pesado. Tudo o que temos em excesso nos cansa mesmo. Todo mundo precisa de cinco minutos para respirar. Eu deixo a Isabela com alguém e sumo um dia inteiro, uma noite inteira. Sozinha ou acompanhada. Preciso respirar sem pensar em horários e cuidados. Sei que ela está bem e posso viver um dia sem ela, e ela precisa viver um pouco sem mim, cada vez mais ela precisa de individualidade.

Durante o desabafo dessa personagem, ela lista coisas que ela faz que a tornam uma boa mãe. Sério, tenho em mente que somente as pessoas que fazem maldade ou negligenciam muito seus filhos que não são boas mães. O resto, com amor, cuidado, carinho e dedicação, cada um do seu jeito, é uma boa mãe dentro do que acredita que é ser bom para seu filho.

 

“Mas… às vezes… Eu odeio ser mãe. Porque tira a minha liberdade, e porque é uma merda”

Eu já falei muito essas duas frases. Principalmente quando a Isabela era bebê ou pequenininha. Não tá tudo bem criar um filho sozinha, sendo nova e sem emprego. Eu ficava com raiva por me sentir tão frustrada e não poder fazer as coisas que eu queria. Nem sempre eu to falando de festas e viagens. Muitas vezes eu só queria tempo para um curso, estudar, ler, ficar em silêncio, e eu não conseguia nada disso, eu tinha uma criança que dependia de mim para tudo. Tinha hora que eu queria sumir pra sempre, mas só podia durar até a próxima mamada ou troca de fralda. Quantas noites eu não passei em claro com ela chorando de cólica e tudo o que eu pensava era que podia ter aproveitado que estava acordada para estudar para alguma prova?

Depois dessa cena, eu pausei a série e comecei a pensar como teriam sido meus últimos 11 anos (contando a gravidez), se eu não tivesse tido a Isabela. A primeira coisa que me ocorreu é que eu não teria feito a faculdade de Direito. Quando eu decidi largar tudo e estudar teatro, eu descobri que estava grávida e achei melhor sossegar onde estava. Depois vi o número de cursos e coisas que meus amigos fizeram nesses 11 anos, e comparei com o que fiz. Eu fiz um monte de cursos, fiz uma pós graduação e voltei a estudar o teatro. Só adiei um pouco tudo isso, e tive que fazer coisas que permitissem levar a Isabela junto. Fiz a faculdade e conquistei minha carteira da OAB. Eu estaria vivendo de forma mais livre, eu estaria vivendo mais de acordo com o que eu queria, mas eu não trocaria o que tenho hoje para o que eu poderia ter tido. Mesmo porque, muitas das conquistas foram causadas por incentivos da Isabela. Ela que me fez entender que a advocacia sustenta nós duas, nossos Hobbies e novos estudos.

Mesmo assim, muitas vezes eu odiei ter minha liberdade cerceada. Hoje eu não sinto culpa quando falo isso, pode ser que amanhã eu sinta, essa culpa vai e vem com grande frequência. Não muda em nada sentir ou não sentir um peso, o amor permanece crescendo todo dia, ela continua sendo a melhor coisa que me aconteceu e eu continuo correndo atrás dos sonhos, então é só mandar a culpa e as pessoas que te julgam pra longe e continuar vivendo. No mais, é só uma fase, eles crescem rápido demais. Quando você menos percebe, te sobra tempo pra sonhar e realizar.

Um comentário em “Nem todo dia queremos ser mãe

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  1. Má, não tem nada de errado pensar assim!!! Qts coisas que eu me pergunto “e se”… Não sou mãe, pq não sei nem cuidar de mim, vc sabe!!! Adorei seu desabafo…

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