Descobri que meu poder de mãe é limitadíssimo

Esses últimos dias foram marcados por dois assuntos diferentes relacionados ao mesmo tema. O primeiro foi a explosão da série 13 Reasons Why, onde uma garota que se matou deixou fitas gravadas com motivos que culpam todos à sua volta por sua morte. O outro assunto que tá em alta e causando um pânico geral é o jogo Baleia Azul, ainda não se sabe quem está por trás e tem até uma teoria de que não se trata de uma pessoa, mas sim de um programa de computador, o fato é que jovens são chantageados a passarem por algumas provas e depois se matarem.

Eu não pretendia escrever sobre isso porque acho que isso é assunto para quem entende da mente humana, e eu mal entendo a minha. Porém, tenho recebido tantas mensagens me pedindo opinião como mãe, advogada e ser humano que resolvi desabafar as coisas que ficaram presas na minha cabeça.

Muitas das mães que me procuraram falaram como se seus filhos fossem imunes ao jogo, mas que poderiam ser vítimas de alguém que está passando por uma das fases. Eu recebi de vários pais e mães, inúmeras piadas e críticas tanto sobre o jogo quanto sobre a série. Tudo se resume a falar que se esses jovens trabalhassem ou ajudassem a mãe em casa eles não estariam jogando e se matando. Veja quanta maldade desses adultos em diminuir o mundo e a dor de seus filhos. Se trabalhar e ajudar em casa fosse a solução, o mundo estaria livre de depressão e psicoses. Mas isso não tem nada a ver com o emocional. Se a pessoa está depressiva, uma pia de louças não vai fazer a dor passar. Mas o fato de os próprios pais ignorarem que a dor existe ou fazer piada com isso pode aumentar o sofrimento.

A depressão de um adolescente não é fácil de detectar, eu fui uma adolescente que estava sempre rindo, ia a todas as festas e vivia rodeada de amigos. Hoje, na fase adulta, quando converso com amigos daquela época, muitos dizem que queriam ser como eu era. O que ninguém sabe é que eu era depressiva, tinha pensamentos destrutivos e não me aceitava, eu sentia que eu não me encaixava em lugar nenhum. Meus pais perceberam isso quando já estava em uma fase mais avançada, eles demoraram porque, aparentemente eu contava tudo a eles. Aparentemente, porque no íntimo, eu não contava nada, eu escondia os sentimentos e só falava de forma superficial sobre a minha vida. Conto isso para mostrar como não podemos julgar um adolescente pela vida social e sorrisos que eles estampa. A depressão não está só naquele ser introspectivo ou tímido. Eu era chamada de divertida pelas amigas, até hoje elas lembram das piadas e brincadeiras que eu fazia, e no fundo eu estava mascarando sentimentos de dor.

A única coisa que vejo que está ao meu alcance como mãe, é o diálogo e procurar ajuda. Quando a Isabela, aos 7 anos, apresentou medos e angústias que não estavam ao meu alcance resolver, eu procurei ajuda de profissionais, e com uma boa psicóloga, ela conseguiu ferramentas internas para resolver essas dores tão pessoais.

A nossa conversa sempre se baseia em mostrar que somos humanas e que podemos sim ser atingidas por tais situações. Quando conversamos sobre suicídio, depressão e o jogo, expliquei a ela que não existe chantagem ou ameaça no mundo que vale mais que a vida dela ou dos outros. Ela disse que ouviu que eles dizem que vão matar a mãe e que ela faria o que pedissem se esse fosse o caso. Conversamos sobre a importância de contar isso para os pais ou um adulto de confiança, de que quando você cede a uma chantagem, a próxima será ainda pior.

Senti que o meu poder é muito limitado, o que posso fazer é mostrar que seja lá qual for a dor, o medo ou a angústia, ela pode contar comigo e que ela nunca estará sozinha contra o mundo. Tentei deixar claro que por pior que seja o segredo que ela quer proteger, se alguém está contra ela, está contra mim e que faremos qualquer coisa juntas.

Aprendi com a Isabela que se ela está com medo de escuro, de monstro no armário ou qualquer outra coisa absurda, eu não posso diminuir a situação, eu preciso entender a idade e a cabeça dela, e ao invés de fazer ela se sentir ridícula, eu apenas mostro que isso não existe, e que se existisse, eu a protegeria.

Por fim, aprendi a respeitar a noção de tempo que ela tem. Ela ainda viveu muito pouco com relação a mim. Para ela, o tempo passa mais devagar, o ontem está mais longe, o amanhã nunca chega. Eu preciso entender isso para conversar com ela quando a vejo ansiosa ou saudosa. Ao diminuir esses sentimentos, estarei mostrando a ela que não me importo com o que ela sente e não é isso que quero que ela sinta.

Então, para essas mães que me procuraram, eu só consigo dizer duas coisas, a primeira é converse muito com seus filhos, sem julgamentos, sem sermões ou discursos, use mais o ouvido do que a boca. A segunda é para respeitar os sentimentos deles, não é engraçado suicídio, medo ou qualquer sentimento ruim, entenda que a dor deles é grande para eles e que ao rir disso, você só está aumentando o sofrimento e afastando eles de você.

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