Feliz ? Dia da mulher

Hoje eu não escrevo para mães. Escrevo para todas as mulheres. Aliás, escrevo para os homens também!

Dentre felicitações de que nossos úteros servem para reprodução, por sermos mães, mulheres, sogras, irmãs e qualquer outro papel na vida dos homens, existem motivos reais e sérios para o dia da mulher. Essa data também serve para falar da opressão que sofremos todos os dias em qualquer setor da sociedade.

Gostaria de entender porque sempre que uma mulher aborda qualquer tema relacionado a igualdade, respeito, fim da violência doméstica e da cultura do estupro, ao invés dos homens encorajarem, ouvirem e entenderem, muitos deles apenas desmerecem a luta com discursos de que as mulheres só querem o que lhes convêm. Por que não lutarmos por uma sociedade justa e igualitária?

Cansa receber mensagens dizendo que não precisamos de um dia, que somos especiais, que somos divinas por gerarmos uma vida, e todo aquele blábláblá acompanhado de flores e bombons. Depois de tudo isso nos deparamos com a realidade: desprezo do mercado de trabalho, justificativas para nos agredir, violentar e erotizar nossos corpos desde muito pequenas.

Por que será que somos tratadas como objeto de prazer (ou desprazer) do homem? Por que precisamos de Leis que nos protejam? Por que será que muitos dos homens dizem que amam as mulheres mas exalam tanto ódio contra nós?

A covardia é tanta que eles se eximem da culpa. Culpada somos nós que não nos demos ao respeito, culpadas somos nós que ficamos menstruadas e por isso podem nos chamar de inconstantes.

Você já reparou que quando uma mulher faz fofoca ou trai uma amiga, todos dizem que isso é coisa de mulher? Quando um homem faz exatamente a mesma coisa, aquele ser individualizado, é um falso, a classe não. E a fofoca, a inveja, a traição e tantas outras coisas ruins, não são exclusividades das mulheres, não são invenção nossa, são características do ser humano que escolhe qual atitude e sentimento pode domá-lo.

Toda vez que se fala em abuso ou assédio sexual, logo indaga-se a vítima. Que roupa usava, onde estava, por que estava? As raras vezes que culpam o agressor, logo dividem a culpa com a vítima.

Certa vez um senhor bem velho me agarrou e tentou beijar minha boca a força. Eu tinha 12 anos e estava em uma matine de carnaval, um lugar para criança brincar e curtir. Ninguém me ajudou e ele ficou rindo me segurando bem forte. As poucas pessoas que ouviram minha história me falaram que carnaval é assim mesmo.

Repare bem, em um carnaval para crianças, uma menina de 12 anos é agarrada a força por um velho. O que tem de normal nisso? Que carnaval que é assim? É a festa do estupro? Da pedofilia? Não. É só a sociedade aceitando a violência contra a mulher em qualquer idade e local.

Tenho inúmeras histórias sobre eu ser assediada em transporte público durante a adolescência. Não era festa, não era carnaval, não tinha nem um casal se beijando ou pessoas consumindo bebidas alcoólicas no local. Mas sabe o que todo mundo falava quando eu trazia esse assunto? Homem é assim mesmo, não respeita. Diziam que eu devia ficar esperta e não usar roupa justa nem dar bobeira por aí. Claro que a culpa não é do abusador, mas sim da menina que precisou utilizar um transporte público.

Falhamos tanto como seres humanos que precisamos criar a Lei Maria da Penha, para proteger as mulheres de seus próprios pais e maridos. A Lei foi uma tentativa de inibir essa prática comum no dia-a-dia da maioria das famílias brasileiras. Cria-se a Lei para proteger e descobre-se que precisa de muito mais que isso. Inclui-se então, no Código Penal, em pleno ano de 2015 o crime de Feminicídio. Em uma época em que já devia estar ultrapassado o assassinato de mulheres pela condição de serem mulheres, precisamos criar uma Lei para tentar diminuir o número de homicídios em função do gênero.

Talvez um dia não precise de leis, não precise culpar a vítima e todo mundo entenda o que significa respeito. Talvez um dia a grande maioria dos homens parem de odiar as mulheres e passem a respeitá-las. Talvez um dia a sociedade pare de oprimir a mulher e entenda que o homem é capaz de entender seus atos. Talvez um dia a gente possa parar de lutar. Talvez um dia possamos por a cabeça no travesseiro e dormir sem medo.

Hoje eu aceito de bom grado a sua rosa, os parabéns e os mimos. Eu entendo que estou sendo parabenizada pela luta e pela sobrevivência. Mas eu desprezo a rosa, os parabéns e os mimos daqueles que todos os dias praticam o machismo.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: