Filhos fogem de casa

Sempre recebemos notícias de adolescentes que fogem de casa ou que saem escondido dos pais. Lembro que na minha adolescência, quando eu saía de casa eu avisa minha mãe onde estava e com quem estava. Minha mãe sempre pediu para irmos dando notícias ao longo do dia, e eu dava. Mesmo assim, um dia eu fugi de casa.

Antes de falar disso, vou explicar como era minha cabeça na época, para mostrar que cabeça de adolescente nem sempre faz sentido para os adultos.

Eu era chata e rebelde, queria ser diferente de todo mundo. Vivia buscando coisas inalcançáveis e ficava frustrada porque não conseguia. Eu sofria com qualquer coisa. Hoje eu sei que meu sofrimento com o mundo surgiu quando eu descobri que existia um mundo muito diferente da minha casa. Eu vivo em uma família bem estruturada e com amor em excesso. Sempre tivemos uma condição econômica muito segura, nunca me faltou nada, pelo contrário, sempre sobrou.

Ao me mudar para São Paulo e andar a pé, usar transporte público, me fez enxergar que o mundo não era perfeito para os outros, só para mim. Com 9 anos de idade eu descobri que existiam crianças que pegavam comida no lixo. Aquilo me fez chorar por um longo tempo, acordava a noite pensando nas crianças que dormiam com fome. A cena da criança pegando comida no lixo se tornou comum, algo que eu via todo dia. Na minha ingenuidade, quando eu jogava o resto do meu lanche no lixo, eu embrulhava bem, para essa criança achar uma comida limpinha. Até hoje sinto dor quando jogo fora comida porque estragou e ninguém comeu.

Aos 13 anos, a janela do meu quarto tinha vista para a Av. 23 de Maio. Um dia frio, voltando para casa, olhei para as famílias que viviam embaixo do viaduto, quis fazer algo por eles, entrei no meu quarto e doei todas as minhas roupas. Deixei cinco blusinhas, dois agasalhos, duas calças, dois shorts, um par de tênis e um de chinelos. Dei tudo o que tinha. E fiquei sofrendo pensando na vida dessas pessoas. Eu era assim, tudo me causava sofrimento intenso.

Ando lembrando muito dessa fase. Da minha rebeldia sem causa, das dores que eu sentia simplesmente porque o mundo existia. Eu descontava isso nos meus pais, era como se tivesse que punir eles por sermos tão felizes e o mundo ter tanta dor. Essa dor e busca da felicidade impossível me fizeram um dia fugir de casa. Uma fuga tosca e curta. Por alguma razão que eu não lembro, eu estava gritando com a minha mãe dizendo que ela não me entendia, eu sempre falava isso.

Tínhamos acabado de vir de São Paulo para Campinas, peguei uma mochila, coloquei meia dúzia de roupas, nessa época eu já tinha mais roupas de novo, combinei com uma amiga que eu ia para a casa dela em São Paulo. A sorte do destino é que minha casa era longe do ponto de ônibus, e durante a caminhada consegui me acalmar.

Sentei no ponto e fiquei esperando um ônibus para a rodoviária, outra sorte, o ônibus demorou demais. Deu tempo de pensar além da minha raiva. Parei de pensar no plano de fuga e comecei a pensar na minha mãe. Fiquei pensando no que ela estaria fazendo ou pensando. Caiu a ficha da sacanagem que eu tava fazendo. Eu não podia deixar minha família sem saber onde eu estava, sempre combinamos que dar notícias era essencial.

Lembrei dos meus pais falando que era importante falar a verdade para se algo acontecesse, se eu sumisse, fosse sequestrada ou qualquer coisa ruim, eles saberiam logo e teriam pistas de onde me achar. Esse pensamento do sequestro me veio à cabeça, não pensei que eu poderia ser sequestrada, mas pensei que eles poderiam pensar nisso. Eles poderiam ficar imaginando mil coisas ruins enquanto eu estava bem. Era sacanagem demais. Voltei para casa e fiquei chorando semanas pelo que fiz.

Essa semana teve um caso parecido em Campinas, a menina sumiu o final de semana todo, a cidade toda parou para procurá-la, mas ela só tinha ido acampar com um amigo. Fiquei tão feliz quando ela apareceu sã e salva sem ninguém ter feito nenhuma maldade com ela. Foi um alívio e eu nem a conheço.

A menina sumiu, tava bem, foi aprontar e não teve maturidade de pensar antes. Graças a sorte, não aconteceu nada, porque sempre que uma menina some mentindo para os pais eu penso no caso  Liana Friedenbach e Felipe Caffe. Meu choque veio quando eu entrei no facebook da mãe da menina e vi milhares de pessoas criticando a família, a menina, a situação e dizendo o que fariam no lugar dessa mãe. Vi até comentários falando que se a mãe chamou todo mundo para procurar a filha dela, deu a liberdade para todo mundo se meter na vida delas. As pessoas são tão malucas que transformam um sumiço de uma adolescente em uma novela e a volta da menina com vida, sã, salva e feliz é motivo para odiarem a menina e criticarem a mãe. A sensação que tenho é que queriam outro caso chocante como esse.

Adolescente tem suas rebeldias, suas dores e se chocam com o mundo o tempo inteiro. Tem dor, hormônio, sentimentos novos e muita insegurança. Nem sempre os adultos conseguem se comunicar de forma eficaz com seus filhos nessa fase. Terapia ajuda, me ajudou muito. A melhor coisa que podemos fazer como pais é ouvir nossos filhos, ouvir mais do que falar. A única coisa que devemos fazer como pessoas de fora da relação pai e filho é calar a boca e só opinar quando a pessoa pedir e insistir pela nossa opinião. A empatia é essencial.

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