Fim de relacionamento

Esse texto não tem muita relação com filhos ou maternidade em si, mas é para nós mães, entorpecidas pelo romantismo e o sonho da vida de comercial de margarina. Escrevi isso com autorização de uma amiga que precisava dessas palavras. Minhas amigas me chama de coração gelado porque não gosto do falso romantismo (aquele em que comemoramos datas só porque é obrigado), mas confesso que eu AMO (com letras bem grandonas) o romantismo espontâneo, as pequenas demonstrações do dia a dia, e, principalmente amo comédias românticas. Assisto mil vezes os mesmos filmes e sempre sonhei com a clássica cena dos anos 80 em que o mocinho aparece no jardim de casa com um rádio (maior que ele) tocando a nossa música, ou ainda, que ele pare a escola, como aquele filme 10 coisas que eu odeio em você). Também confesso que já li todos os livros da Marian Keyes e me identifico com todas as Walsh (se você gosta de romance previsível e sem nenhum acontecimento grandioso, vai no Google ou na livraria e leia!!)

Sem título1Por acreditar nesse amor de filme que eu me frustrei. Quando eu saí de um relacionamento abusivo e conturbado, eu estava tão machucada e sem vontade de viver que eu não queria falar com ninguém e nem sair na rua. Era um piloto automático, uma mãe robô, como a empregada daquele desenho “Os Jacksons”. Eu fazia de tudo pela Isabela, mas minha vida se resumia a isso, era como se eu tivesse perdido a alma de ser humano e só estava aqui ainda porque o amor me prendia à Isabela.

Esperei um ano para ter coragem de voltar para a casa dos meus pais. Mas antes disso fiz algumas coisas pra me reerguer. Como a viagem que já contei aqui, eu fui sozinha para o Canadá e fiquei um mês lá. Foi uma das melhores coisas que fiz nada vida, mas foi frustrante. Não teve aquele cara legal que me ajudou com as malas no aeroporto e dividimos um táxi e nos apaixonamos. Também não teve o amigo solteiro dos meus colegas que surgia todo divertido e descontraído e me ensinava a dar risada de novo. Não teve nada, nem o estrangeiro que também estava estudando inglês e se perdia comigo pela cidade por não conhecermos nada. Lógico que tiveram as amigas que fiz lá e me ensinaram a sorrir de novo, mas faltou o amor dos filmes e livros. Ainda bem, eu precisava era me amar.

Voltei de lá muito mais feliz e segura. Depois de alguns meses, voltei a morar com meus pais. Na minha antiga casa, no meu antigo quarto, com a minha antiga janela, com a minha antiga vista. Nada era o mesmo, os olhos e os sentimentos que eu trazia não eram os mesmo. Pior de tudo, não encontrei o ex amor da adolescência, que se fosse um filme estaria lindo, bem sucedido, bem resolvido e solteiro. Quando eu saía para correr no condomínio não surgia um labrador correndo pra cima de mim querendo brincar, e logo atrás um dono, lindo, apaixonante e feliz, que passaria e me fazer companhia nas corridas matinais. Também não surgiu a situação do meu carro quebrar em uma noite chuvosa, ali no cantinho do bairro que passa pela fazenda e não tem nada além de gado, e de repente pararia um moço bacana para nos apaixonarmos. Outra sorte que tive, eu realmente não precisava dos mocinhos resolvendo minha vida, eu que tinha que fazer a vida.

Também não aconteceu o oposto, eu não salvei nenhum amor da minha vida em momento algum. Não conheci um pai viúvo e perdido do qual eu me apaixonaria por ele e pelas crianças. Simplesmente a vida seguiu e eu aprendi a me amar. Quando aprendi a viver sozinha, a não sonhar mais com um príncipe me salvando ou comigo salvando alguém, me apaixonei por mim. Demorou muito. Saí da depressão que me derrubava cada vez que eu me lembrava do que tinha vivido. Com o tempo eu já gostava tanto de fazer tudo sozinha, com a filha ou com amigos, que vi que esse papo de comédia romântica só poderia acontecer comigo quando fosse para acrescentar, de preferência de um jeito bem menos tosco.

Hoje eu só aceitaria um labrador babando em mim se o dono aparecesse pronto, nada desse papo de você me completa ou só somos felizes juntos. Na verdade, se hoje um cara para na minha janela perturbando a vizinhança com um rádio eu mando ele fazer silêncio, se um louco para a rua pra cantar pra mim, eu viro as costas e vou embora. Ninguém em sã consciência precisa que o mundo saiba de seus relacionamentos.

Quando você menos perceber, você se sentirá tão completa que só aceitará seres completos. A melhor coisa para a humanidade (ou para os homens que poderiam ter cruzado meu caminho), foi nada disso acontecer, pois eu estava ferida, machucada, procurando band aid e não amor, eu nem tinha amor para retribuir e machuquei algumas pessoas no percurso. Até tiveram algumas dessas situações, mas eu não as aceitei. Decepções, medos e traições trazem à tona alguns sentimentos muito ruins, parece que nosso chão cai, que nossa força some e nossa vontade é de dormir e nunca mais acordar. Mas se vivermos um dia por vez, conseguimos nos reerguer.

Eu me levantei muito devagar, parecia que meu corpo tinha o peso do mundo e eu não tinha força para erguê-lo, então adaptei o lema dos grupos de apoios que amigos frequentam (alcoólicos anônimos e narcóticos anônimos), meu lema era: “só por hoje eu vou sorrir”. Eu me forcei a me arrumar, pentear os cabelos, passar batom e vestir meu melhor sorriso. Mesmo quando eu não queria nada, eu pensava que era só por hoje. Comecei a sair de casa aos poucos, primeiro os eventos sociais da filha, depois da família e por fim dos amigos. Voltei a me apegar em coisas importantes, fui fazer pós-graduação, me apeguei nos estudos, em conhecer gente nova, fazer amizades. Tirei o mau humor fazendo elogios e piadas o tempo todo. Sempre que eu via algo de ruim em alguém eu procurava três qualidades na pessoa e as falava em voz alta, o sorriso da pessoa me fazia sorrir. Assim, dia após dia eu parei de querer o amor dos filmes e passei a me amar. Mas já adianto, quando você se ama, fica muito difícil achar um amor à sua altura, e nada no mundo vai te fazer mais feliz do que a sua própria companhia.

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