Temos que ensinar a gritar

Como eu disse semana passada, escrevi três textos sobre as famílias e suas responsabilidades perante o machismo. Hoje posto o segundo texto para falar sobre o quanto nos silenciamos quando a coisa não é com a gente. Nossas crianças só vão aprender a denunciar o machismo quando souberem que podem gritar. Quando um adulto se aproveita de um menor de idade, esse menor só saberá que pode pedir ajuda se ele souber que isso é errado.

E como ele saberá que isso é errado? Não basta falar para as crianças que quando alguém as tocar de maneira inapropriada elas devem contar para os pais, não basta falar para os meninos e meninas que todos são iguais, não basta deixar cada um brincar com o que quiser. Isso tudo é só o começo de uma combinação de coisas para dar certo. Precisamos mostrar a eles que a liberdade e a segurança devem caminhar juntos, e que, principalmente, eles podem contar com a gente.

Se o adulto fica julgando os outros ou fica inerte quando presencia algo errado, por mais que ele fale para as crianças contarem com ele, ela sabe que ele fala uma coisa mas faz outra. Essa criança não vai contar nada.

Como sempre procuro mostrar minha experiência para ilustrar o que estou dizendo, vou contar uma coisa que aconteceu comigo. Aos 13 anos fui estudar em uma escola perto de casa. Sempre que eu voltava mais tarde da escola, eu torcia para o meu irmão também estar na rua ainda, porque ir embora sozinha implicava em aguentar homens me chamando de gostosa e falando coisas que eu nem sabia o que significavam.

Certa vez um cara saiu de uma obra, segurou meu braço, deu um beijo na minha boca e continuou andando. Deixei toda a boa educação de lado e comecei a gritar um monte de palavrões para ele. Ele continuou andando. Era no meio da tarde, há duas quadras de casa,  em um bairro movimentado de São Paulo. Algumas das pessoas em volta riram, outras continuaram andando como se nada tivesse acontecido.

O que significou isso tudo? Mostrou pra mim que não adiantava gritar, as pessoas em volta não iam me ajudar. Homens, mulheres, qualquer um ia rir. Sempre que eu entrava no metrô e vinha algum homem querendo ficar muito pertinho bem atrás de mim, um medo me tomava, passei a sempre ficar encostada na porta e a procurar mulheres no vagão para me aproximar. Eu sempre ia com uma mochila nas costas, mesmo que não tivesse nada para carregar, eu colocava qualquer coisa lá dentro, era só para afastar um pouco quem quer que decidisse ficar muito pertinho atrás de mim.

Eu saía na rua repetindo alguns mantras na minha cabeça, pedindo proteção, pedindo para passar despercebida por qualquer lugar público. Não eram só os rapazes das obras que me davam medo. Eram homens, meninos, ricos, pobres, qualquer um, porque fazer isso com as mulheres em público não tem nada a ver com classe social, é só algo que acontece e raramente alguém nos ajuda.

A maluquice do machismo ultrapassa o sexo, na verdade, ultrapassa qualquer limite ou vontade. Lembro-me de um menino da escola que adorava fazer tricô. Ninguém sabia disso. Um dia estávamos conversando sobre coisas que fazemos e não contamos pra ninguém, eu comentei que eu tinha o hábito de escrever em diários. Ele me disse que adorava tricotar, que fazia cachecol, sapatinho, essas coisas, para a família dele. Ele me fez jurar que isso seria segredo. Por que será que um menino precisa manter em segredo algum hobby inofensivo? Se ele fosse menina ele podia fazer isso em público que ninguém ia notar.

Vejo muitas mãe falarem que na casa delas não tem machismo, que seus filhos brincam de tudo, que o irmão brinca com as coisas da irmã e vice-versa. Raramente vejo essas mães comprando boneca para os meninos e carrinhos para as meninas. Soa mais como um recado de que em casa eles podem brincar com o que quiserem, mas não podem ter o que bem entenderem. Podem até gostar das coisas um do outro mas não podem ter as mesmas coisas que outro.

Esse silêncio dos pais, essa omissão, seja com coisas inocentes como brinquedos e passatempos, seja com coisas sérias como abuso sexual, transmitem uma grande insegurança para a criança. Fica aquela sensação de que ele está sozinho se ele escolher algo inapropriado para seu gênero. Soa como um abandono se alguém o fizer mal.

Como que uma adolescente consegue contar para seus pais que alguém se aproveitou dela se eles mudam de assunto sempre que ela fala sobre sexo? Como uma menina pede ajuda na rua, no transporte público ou qualquer outro lugar, se quem viu o abusador está fingindo que não viu? Como deixar as crianças a vontade para brincar com o que querem se quando alguém determina que aquilo é de menino ou menina nós apenas aceitamos?

Minha filha não gosta de cor de rosa, cada vez que vamos comprar um brinquedo, como pista de carrinho, por exemplo, ela fala “quero comprar a de meninos”. Porque se ela não especificar que está comprando algo de menino, mesmo sendo menina, os vendedores insistem que ela precisa do rosa. Minha parte nisso é reforçar para ela que ela não quer nada de menino ou menina, repito pela cor ou modelo, fala algo como “você quer o azul”, e mostro que além dela estar certa em escolher o que quer, eu estou ao lado dela.

Acredito que eu tenho poder de mudar essa cultura machista. Eu quero uma filha feliz e um mundo em que todos se respeitam. Então, tento dar importância ao que a Isabela fala, ensino a ela a gritar e a ouvir quem pede ajuda. Só vamos poder parar de gritar quando o perigo acabar. Precisamos mostrar que quando vemos algo errado temos que falar, temos que ajudar quem está em perigo, temos que acabar com o silêncio e gritar muito alto para abafar essa maldade chamada machismo.

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