O gato NÃO comeu a minha língua

Os adultos costumam ser inconvenientes com as crianças. Muitas vezes, na tentativa de serem amigáveis, eles acabam constrangendo mais ainda. Sempre que me deparo com situações que vejo que a criança não ficou bem, me recordo como era quando eu era criança.

Sempre ensinamos para os nossos filhos que eles não devem falar com estranhos. Mas quando estamos no shopping e encontramos um conhecido, que nosso filho não conhece, queremos que ele seja simpático e amigável. Eu nunca tinha me ligado dessa contradição. Até que um dia a Isabela falou que eu falava com estranhos. Expliquei que eram estranhos para ela, mas que eu sabia com quem ela podia falar, aqueles estranhos eram conhecidos meus.

Depois disso meditei muito no assunto. Eu sou tímida, fico super sem graça quando não conheço as pessoas ou quando estou em um ambiente novo. Quando a Isabela me falou que ela se sentia com vergonha diante de pessoas novas, eu falei que eu também me sentia assim. Ela falou que não parecia que eu tinha vergonha. Foi aí que ensinei a ela “meu truque”. Primeiro eu contei pra ela que ninguém sabe o que pensamos ou sentimos, então ninguém sabe que ela está com vergonha. A melhor forma de esconder a vergonha e ir adiante é agir como se estivesse confortável. Depois de um tempo, mesmo que ainda ela se esconda atrás de mim, naquele gesto típico de criança tímida, ela fala pelo menos um “oi”.

Quando a criança esconde o rosto, ela se sente protegida. Mas muitos adultos acham que essa é a deixa para eles invadirem o mundo dela. Você notou que a criança está com vergonha, para que piorar tudo? O que eu faço quando vejo que uma criança não quer falar comigo é não falar com ela. Eu falo um oi simpático de longe. Aos poucos eu vou puxando assunto sobre algo que ela está fazendo ou olhando. Se der certo, ganhei um amigo. Se não der certo, respeito o espaço da criança. Nunca entre na frente da mão ou da mãe que esconde o rosto tímido.

Eu ajo assim porque eu odiava quando um adulto me via sem graça e fazia piada da minha timidez. Ou fazia uma cosquinha sem ter a menor intimidade. Ainda piorava quando puxavam papo e eu sentia vontade de cavar um buraco e me esconder. Sempre tinha que ouvir a famosa pergunta “o gato comeu a sua língua?”. Minha vontade era de dizer: “Não! Não comeu, e nem precisa comer para eu querer deixar ela quietinha onde está!” Mas eu só fazia uma carinha mais sem graça ainda.

Para deixar a criança a vontade, evite fazer piadinha da timidez, deixar a criança sem graça não quebra o gelo, pelo contrário, congela mais. Criança não é muito diferente de adulto. Se coloque no lugar dela. Te proponho uma coisa. Responda essas perguntas antes de falar com a criança que não quer falar com você:

Quando você está sem graça, você prefere que ignorem ou que fiquem rindo de você? Quando você está mal humorado, você prefere que te deixem quieto ou que fiquem fazendo cosquinha e falando que você tá com sono ou com fome? Você preferem que respeitem seu tempo, ou gosta que imponham o momento de você se expor?

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