O lado do filho

Recebi esse desabafo de uma leitora, ela não é mãe, é filha. Para proteger a privacidade e a identidade, ela permitiu que eu publicasse desde que não a identificasse, vamos chamá-la de Gabriela.

A Gabriela me procurou para mostrar o lado do filho na relação com a mãe solteira. Esse e-mail chegou em um ótimo momento, pois a Isabela chegou nessa fase e a partir das palavras dela eu consegui entender melhor como minha filha se sente. Gabriela: obrigada por se abrir, obrigada por nos permitir entender o lado do filho e obrigada por nos ensinar muito com essas palavras. A seguir, a carta da Gabriela:

Sempre me vi como diferente. Como se não pertencesse ao mundo que eu acreditava ser ideal. Não me encaixava, nada me preenchia. Os meus passos sempre foram um tanto solitários, quando eu olhava para trás só via minha mãe.
O tempo foi passando, o vazio cresceu. Até que não pude mais suportar e precisei lidar com a minha história.
Tenho 22 anos. Aos meus 2 anos, meus pais se separaram. Talvez jovens de mais para a mudança que um filho traz. Talvez, ele imaturo de mais para ser pai. Talvez… Não que a imaturidade seja desculpa para não, ao menos tentar, ser pai.

Me doeu muito – e ainda dói- crescer sem meu pai.
Aquela história de que quando tem um monstro de baixo da cama, o papai vai lá te proteger, não aconteceu comigo. E os monstros vieram, e ainda vêm até mim, de várias formas, e eu nunca o tive por perto. E por incrível que pareça, muito cedo conheci e tive que lidar com o primeiro monstro- ele não estava no armário, nem embaixo da cama:  fazia parte de todos os meus dias. O monstro de nascer, crescer e viver sendo rejeitada.
Rejeitada pelo pai. De quem sempre esperou (e implorou) amor e atenção.

Não tive festa de aniversário, dia dos pais, e nem dia das crianças que meu pai estivesse ao meu lado. O presente que eu fiz por tantos anos, na escola, eu pedia para que meus avós tentassem entregar para ele. Sempre feitos com muito amor, todo o amor que cabia em mim.

Nunca tive cafés da manhã, almoço e jantares  em “família” (papai, mamãe e filha).

Ele nunca soube de detalhes da minha vida, da minha personalidade. Dos meus medos, das minhas inseguranças, das minhas certezas. Nunca soube quantas vezes me decepcionei, quantos pesadelos eu tive, quantas vezes meu coração foi quebrado em mil pedaços- e tantas vezes, por ele mesmo.

Eu era criança, incapaz de entender as razões dele. E talvez, nem caiba a mim entendê-las, nunca acharia uma explicação decente para um ser humano não ser capaz de amar seu próprio filho.

Falo dessa falta de amor com propriedade. Já ouvi que ele nunca quis ter filhos, que não teria outros porque já teve essa experiência (ruim). Já vi nos olhos dele o prazer de me ver chorar- por ele- e o sorriso que surgia do meu sofrimento.

Em mim, desde muito cedo, houve e há, um medo de ser rejeitada. Me protegi de todas as formas de ter novas relações com quaisquer pessoas que demonstrassem afeto por mim.
Proteção! Só quem já foi rejeitado sabe a dor e o pesadelo que isso se torna na vida. É como se a todo momento, a rejeição estivesse prestes a acontecer… mais e mais vezes, das mais diversas pessoas. Porque eu não me achava digna de amor, de atenção. Toda minha história acabaria em rejeição.

As pessoas que me atraiam, eram justamente as que me rejeitavam. Assim eu nunca estaria exposta a uma nova rejeição. Pelo contrário, se eu pudesse convencer a amiguinha da escola que me rejeitava do quão interessante e legal eu poderia ser, talvez conseguisse fazê-lo com meu pai também.

Outro medo, que tenho até hoje, é o medo de perder as pessoas (poucas) que eu amo. É um medo irracional, e que me consome. Parece que a solidão me acompanha, esperando o momento de se agarrar em mim, para quando não houver mais minha mãe e meus avós,  não mais me soltar.

Convivi por anos, com a aflição e  ansiedade de esperar que em algum dia ele se arrependeria de toda a ausência, desamor, e  falta de importância que me deu. Mas nunca aconteceu.

O vazio no meu peito crescia a cada segundo mais e mais. A angustia de sofrer a pior das rejeições que podemos sofrer na vida – daquele que em nossa cabeça, seria um dos únicos que nos amaria incondicionalmente- parecia me consumir dia após dia.

Minha adolescência, se transformou em um palco de insegurança, rancor e ódio.
“Por que alguém vai me amar, se nem meu pai conseguiu” “Eu não mereço ser feliz.” “Sou castigada.” “Por que foi que eu nasci?” “Eu odeio a minha vida.” “Eu odeio ser filha dele.” “Minha mãe poderia ter escolhido outro.” “Alguém tem que ter culpa nisso!” “Por que a vida tem que ser tão difícil pra mim.”.
Foram as frases que regeram, boa parte da minha adolescência.

Eu era feita de culpa, e estava me transformando em ódio.

Eu me culpava pela separação dos meus pais. Pelo sofrimento da minha mãe. Pelo meu sofrimento. Pelo sofrimento dos meus avós paternos que tentavam me aproximar do meu pai. Tudo o que se achava em mim, era culpa.

Eu odiava a vida que eu tinha. E me perguntava, por que Deus me deixava passar por isso. Por que ele não morreu antes que eu nascesse? Por que eu tinha que ser filha desse homem? Eu não queria ter pai.

A vida era muito pesada pra mim. Com certeza pelo peso que eu mesma colocava na minha existência. Poderia ter sido diferente. Eu poderia ter sofrido menos.
Mas lidar com a minha dor, foi o maior acerto que fiz na minha vida.

Após anos de terapia. De uma busca por explicações e meios de me confortar espiritualmente. Tentar enxergar meu pai como um ser humano que erra, e vai errar por muitas vezes. Aprender sobre a capacidade de amar. Ver que eu não sou, e não serei (infelizmente!) a única a passar por essa situação. E principalmente, ver que posso ainda ajudar tantas pessoas (mães, filhos e até pais), que passam por essa situação a entender o que nós, filhos, precisamos que vocês saibam.

Hoje já não falo, nada além do necessário, com meu Pai.

Sigo minha vida com o coração em paz, e feliz. Aprendi a viver sem o amor dele, já não me faz tanta falta. E aprendi a amar quem realmente me ama.

Acredito que o caminho para chegar a essa etapa de compreensão e gratidão pelo que tenho na vida, tenha sido: conhecer a história dos meus pais que deu origem a minha vida e refletiu na minha história, o amor da minha mãe que preencheu todo o espaço de dor do meu coração e a sua compreensão com meus choros e raivas durante todos esses anos.

Não importa em quantos pedaços meu coração tenha se quebrado, minha mãe sempre com muita paciência e amor, juntou pedacinho por pedacinho, até que eu fosse eu novamente. Sem os pesos e dores que carregava.

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