O caminho mais longo…

1Estávamos em Minas Gerais, em São Bartô e nosso próximo destino era Bueno Brandão. Como eu sou péssima para seguir mapas e lembrar caminhos ou indicações de caminhos eu estudei o mapa o antes. Era bem simples, aproximadamente 3 horas de estrada, caminho de Poços de Caldas (eu já conhecia) e seguia para Bueno.

Eu me esqueci de dois detalhes importantes: o primeiro é que meu GPS adora pregar peças e me dar caminhos malucos. O segundo é que quando eu peço informações para alguém e a pessoa começa a falar, eu me apego na primeira coisa que ela disse “a senhora segue reto, vira a terceira  rua a direita…” e depois disso eu só ouço “blábláblá” enquanto penso “terceira a direita…”. Sei lá, algum defeito de fábrica, nasci assim, totalmente perdida. Se me girar eu esqueço de que lado vinha. Mas sou boa em seguir placas. Então olhei as cidades que tinha que passar pelo caminho e, ao som de Rita Lee, pegamos estrada.

2Foi muito tranquilo chegar até Poços, não pegamos trânsito, estrada vazia e um dia lindo. Fomos conversando e cantando. Até que meu GPS pregou a primeira peça do dia. Sem eu perceber, ele traçou o caminho mais longo. Ganhamos mais trinta minutos de estrada. Quando eu percebi que tinha mudado as cidades nas placas que passávamos, reconheci que estávamos passando por outra rota que eu também tinha visto no mapa. Mas, aparentemente era um caminho tranquilo, segui por ele. Meu GPS além de brincalhão adora uma birra, se eu mudo a rota ele demora muito tempo para recalcular uma nova, às vezes ele nem calcula, simplesmente cai o sinal. Para não discutir com a máquina em um momento que eu dependia muito dela, resolvi seguir por esse caminho.

3Mas, os trotes não pararam por aí! Em um determinado momento, próximo a Ouro Fino, o GPS me mandou entrar em uma estrada de terra. Eu olhei e marcava “2 quilômetros”. Pensei “há, são só 2 km de terra, tranquilo!”. Acontece que era meu GPS brincalhão! Quando acabaram esses 2 km, fiz uma curva acentuada a direita e o GPS marcou “17 quilômetros”. Faltavam 17 km de estrada de terra para eu chegar em algum lugar! Pior que era uma estrada de terra, fazendas para todo lado e não passou ninguém por nós durante os 19 km. A minha sorte é que a Isabela estava dormindo no banco de trás e não percebeu meu desespero. Eu estava perdida, mas o GPS indicava que após essa longa estrada de terra eu voltaria para um caminho que eu conhecia. Segui. A estrada era tranquila, sem buracos, sem subidas e descidas. E eu confesso que passar por Ouro Fino me fez terminar a viagem cantando a música Menino da Porteira.

Acabada a estrada de terra encontrei algumas cidades que nunca vi na vida. Encostei o carro em um posto, estudei o mapa e saí em busca de um lugar para irmos ao banheiro e comer algo. Aí começou outra saga. Achei algo que não gosto em Minas Gerais: as estradas! Nem vou falar dos buracos, vou para o ponto posto de serviços, não tem quase nada no caminho. Além disso, era somente eu e a Isabela, não é em qualquer lugar que temos coragem de parar. Em alguns postos era tudo tão sujo que voltávamos para o carro, em outros ficavam vários homens esquisitos nos encarando. Demorou para achar um lugar que desse para descer do carro em segurança e usar um banheiro com condições mínimas de uso. Aproveitamos a parada e compramos algumas coisas (bolachas e coisas que já vêm embaladas) e seguimos viagem. Agora eu estava tranquila, sabia o caminho de novo, tinha estudado o mapa.

4Chegamos na pior parte da viagem (sim, o pior ainda estava por vir!). A última cidade antes de Bueno Brandão era Bom Repouso. Acontece que de Bom Repouso até Bueno seriam 32km de estrada de terra. Mas agora mudou o cenário, não era uma estrada reta, sem buracos e sem sobe e desce. Era buraco, sobe e desce e GPS sem sinal. A sorte foi que eu estudei o mapa, minha prima que me esperava em Bueno me avisou que seriam várias estradinhas com várias opções mas todas levavam ao mesmo lugar, e as poucas pessoas que encontrei foram me informando. Mas não foi nada tranquilo.

Entramos na estrada de terra e o GPS perdeu o sinal. Fiquei tensa, tentando passar calma para a Isabela. Voltei para a cidade e perguntei para um homem se o caminho era aquele mesmo. Ele me disse:

– xiiii moça, vai até Bueno Brandão só você e a menininha? A estrada é aquela mesma, está certa. Vai pra lá e pega a direita. Se bem que outro dia eu fui e peguei a direita e não foi boa ideia.

Assustada pela pergunta de que só ia eu e uma criança por essa estrada, tentei parecer calma:

– então é melhor eu ir pela esquerda?

Ele me corrigiu:

– não! A direita é melhor.

Confusa, agradeci a informação e segui viagem com a palavra “direita” na cabeça. Acontece que pegamos a direita e o carro atolou! A Isabela começou a ficar em pânico e eu na maior calma (por fora), mandava ela ficar tranquila que era só a mamãe acelerar que o carro ia sair. Saiu. Poeira e cheio ruim pra todo lado, mas saiu. Foram só alguns segundos de pânico. Fiquei com raiva da direita, voltei e peguei a esquerda. Depois eu descobri que devia ter continuado na direita.

Seguindo pela esquerda, encontramos um senhorzinho sentado em um banquinho ao lado de uma porteira. Atrás desse senhor tinha um pato. Parei o carro para perguntar se eu estava no caminho certo. O senhor falava muito baixo e o pato gritava enquanto ele falava. E ele não parava mais de falar, e a gente não ouvia nada de dentro do carro. Esperamos ele falar bastante. Agradecemos e continuamos a viagem sem ter a menor ideia do que ele disse. Eu só esperava que ele não tivesse me dado algum aviso do tipo “volte e pegue a direita que a esquerda é emboscada”.

Continuamos um tempo e passamos por um trator. Parei o carro e perguntei para os dois homens que estavam em cima do trator se estávamos no caminho certo. Eles disseram que sim. Um deles disse assim:

– moça, está certinho, quando a senhora achar que se perdeu e que nunca vai chegar, continue em frente que uma hora chega.

Obrigada moço por acalmar meu coração. Abracei essa informação com todas as forças e a usei de consolo por todo o caminho. Continuamos viagem. Depois de um tempo encontramos um homem arrumando a caminhonete. Encostei o carro e perguntei se Bueno Brandão era para o lado que eu estava indo. Ele respondeu, como o primeiro moço lá na cidade:

– xiiii moça, mas só você a menininha nessa estrada? Ainda bem que está com esse carro alto! Mas acho que a senhora fez besteira vindo por esse lado! Melhor voltar, eu to voltando, se a senhora quiser ajuda.

Desesperada falei:

– quero! O senhor acha melhor eu voltar e começar tudo e novo?

– Acho não dona… a senhora já chegou tão longe.

Fiquei confusa. Um carro se aproximou de nós e ele parou esse carro gritando:

– Zé, me fala uma coisa, como tá a serra?

O Zé me deu pânico:

– péssima. Nunca vi tão ruim, você tá indo pra lá?

– eu não, essa moça com a menininha, só as duas! Mas é melhor elas irem por aí mesmo né?

Zé me acalmou:

– para o carro dela está tranquilo. Podem ir sim.

Agradecemos os dois e fomos. Estava péssima mesmo, um sobe e desce cheio de buracos e mato pra todo lado. Paramos mais algumas pessoas, um moço empinando pipa, outro trator e um rapaz no cavalo. Todos disseram que estávamos no caminho certo. Até que o último (o do cavalo) disse que encontraríamos um bairro, era só seguir em frente mais um pouquinho de terra que chegava.

Quando achamos o bairro comemoramos! Cantamos! Chamamos a única pessoa que tinha na rua e perguntamos se estávamos certas, nossa empolgação era tanta que a pessoa ficou rindo de nós. Ele disse que era só seguir reto. Conseguimos! Quando vimos a cidade aplaudimos nossa sorte. Toda essa saga demorou quase uma hora, para a Isabela não assustar eu ia distraindo ela, mostrando a paisagem, fingindo que só estava confirmando o caminho, quando na verdade eu estava com a certeza que tava tudo errado. Ela até achava divertido o jeito que as pessoas falavam. Mesmo com medo, íamos rindo das informações que recebíamos. O caminho que levaria pouco mais de 3 horas levou pouco mais de 5. Mas conseguimos, sem nenhum acidente, incidente ou susto. Agora esperem que em breve conto sobre o paraíso chamado Bueno Brandão.

 

5 comentários em “O caminho mais longo…

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  1. É assim, mesmo. Já me vi algumas vezes disfarçando meu desespero por estar completamente perdida enquanto cantava músicas do Palavra Cantada, como se não estivesse em pânico… rsrs

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