Birra em público, quem nunca?

Essa semana eu estava esperando minha filha em uma praça pública quando ouço um barulho de criança fazendo manha. O som começou suave, apenas com indícios de que alguém estava insatisfeito com a mãe. Mas o barulho começou a aumentar, e não era porque eu me aproximava dele, era porque a criança aumentava o tom de voz passando para gritos, berros e choro.

Era um menino de uns 3 anos de idade. Ele estava fazendo uma birra daquelas que incomodam todos na praça. Estava assustador o tanto que ele gritava e esperneava tentando impor para a mãe que ele não ia fazer o que ela queria. A mãe calmamente tentou conversar com ele. Ele gritou mais.

Pelo que pude entender, ela só queria que ele fosse com ela até o carro fazer alguma coisa e logo voltava para a praça. Ele não aceitava que a mãe falasse nada. Cada vez que ela tentava abrir a boca, os berros aumentavam.
Ela se afastou, respirou, voltou tranquila e tentou de novo uma conversa. Ele gritou mais alto. Ela saiu demonstrando estar sem a menor paciência. Respirou e partiu para mais uma tentativa. Sem resultado positivo.

Nesse momento eu queria sair de perto de tanto que ele gritava. Eu estava naquele misto de compaixão e saco cheio – toda mãe sente isso diante da birra de filho dos outros. Fiquei dividida sem saber o que fazer. Parecia que ficar sentada perto deles dava a impressão de estar bisbilhotando, mas não tinha como não ouvir, era muito alto. Não tinha como fingir não perceber, era bem na minha frente. Eu abaixei a cabeça e fiquei tentando me distrair com o celular, mas era uma cena que faz parte do meu cotidiano, eu não conseguia não assistir. Se eu saísse de perto podia dar alguma impressão de qualquer coisa para a mãe e eu só queria passar despercebida. Fiquei ali, fingindo não estar ali.

Eu tinha certeza que o menino ia ganhar. Na quarta tentativa a mãe voltou, mais uma vez, ela se abaixou na altura do filho e falou firme e muito séria: “você vai embora comigo sim. Quando souber se comportar volta”. O menino parou de chorar, deu a mão para a mãe e foi em silêncio. Um tempo depois eles voltaram e ele estava bem calmo, obediente e feliz.

Algumas pessoas que não tem filho, quando assistem uma cena dessas, logo condenam a mãe. Acreditam que a criança faz isso porque é mal educada e mimada. Quem tem filho sabe, por mais educado e calmo que seu filho seja, ele vai fazer isso pelo menos uma vez na vida. Vai virar hábito somente se a criança não estiver bem ou se a mãe mostrar para ela que é assim que ela ganha o que quer.

O problema da birra em público não é só a criança, é o público. As pessoas acham que como acontece na frente delas, elas podem participar. Muitas palpitam, mandam a mãe fazer alguma coisa, dão bronca, ou, ainda, condenam a mãe.

Já aconteceu comigo, muitas vezes, da Isabela pedir insistentemente algo e alguém que eu nunca vi na vida falar: “ai mãe, que mal tem em dar isso para a sua filha?”. Nessas horas eu respondo firme “ela é minha filha e eu disse não”. (Se pudesse grifar palavras ditas eu grifava o “minha” enquanto falo).

As que não palpitam ficam olhando feio para a mãe. Condenando como se ela fosse a pior mãe do mundo. Isso faz com que a mãe sinta vergonha e culpa. Mas não devemos sentir nenhuma das duas coisas. Devemos resolver a questão. Como essa mãe fez. Eu faço diferente dela, mas adorei o jeito que ela conduziu.

Por isso contei essa história, porque essa mãe merecia aplausos. Na hora era essa a minha vontade, ficar em pé, aplaudir e parabenizar. (Mas eu tinha que fingir não estar ali). Muitas mães sentem vergonha da birra em público e deixam o filho ganhar o que quer para que isso acabe logo. Essa mãe ignorou que existia um mundo em volta. Ela foi lá e fez várias tentativas sem nem olhar para o lado. No final, ela mostrou para o filho que gritar não ia levar a nada. Ela não levantou a voz em momento algum. Ela não bateu nele. Ela apenas foi dura, séria e não cedeu.

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