Mães que estudam

O tema de hoje foi proposto por uma leitora. Ela me mandou duas matérias por e-mail. A primeira que ela me mandou foi uma que saiu no UOL Educação sobre alunas da USP que podem levar seus filhos para ficar com elas na aula já que falta vaga na creche. Parabenizo os professores e colegas que entenderam e aceitaram. Quando pedimos licença para entrar com as crianças na sala de aula já sabemos que se elas estiverem atrapalhando nós iremos sair. As pessoas não precisam ter medo de aceitar. Só não queremos perder os estudos e ensinamentos por falta de creche.

Como a matéria que ela me mandou começa com aquele assunto sobre a aluna de Jerusalém que levou seu bebê na universidade, e quando o bebê começou a chorar o professor o acalmou enquanto dava aula. Fiquei lembrando da história e comparando com a minha história. Já faz tempo que isso aconteceu. Seria uma notícia velha. Só que acontece todo dia na vida das mães, aliás, na vida das mulheres (já falo sobre as que não são mães). Como frequentar aulas na faculdade, pós, mestrado, cursos, e sei lá mais o que estudamos, sem ter onde ou com quem deixar os filhos?

Quando a Isabela nasceu eu estava no terceiro ano de faculdade, mas meus pais sempre deram um jeito de encaixar a Isabela na agenda deles. Enquanto eu ficava na PUC eles cuidavam dela para mim. Depois quando ela tinha um ano e meio eu a deixava na escolinha no mesmo horário que eu estava na faculdade.

Ser mãe na graduação não é fácil. Ouvi comentários maldosos inúmeras vezes, que não partiram só de outros alunos (para meu espanto, alguns comentários vinham de mulheres). Pessoas que achavam que minha ausência era preguiça de acordar cedo ou irresponsabilidade. Ouvi piadinhas quando ia mal em prova (ninguém pensa que não estudamos o suficiente porque tivemos um filho com febre, cólica ou que precisava de algum cuidado). Tiveram até aqueles que quando me viam com olheiras logo cedo falavam coisas do tipo “a noite foi boa ontem”.

Pior que na época eu passava por tantas coisas na minha vida pessoal que eu não tinha auto estima para me defender, eu ouvia e ficava na minha, triste com a maldade. Eu até me sentia culpada por estar naquela situação de mãe praticamente solteira e sozinha. Hoje com certeza eu reagiria diferente, mas o momento da vida é outro, a idade é outra, a cabeça é outra.

As pessoas sentem prazer em diminuir o outro para se sentir grande. Parece mais fácil ser grande perto do pequeno do que ser grande porque cresceu. Hoje eu vejo isso, na época não via. Se você está na época que não vê, abre o olho, uma pessoa que exala maldade não pode ser melhor que você.

Fim do desabafo, voltando ao assunto, as universidades não me parecem ajudar muito as mulheres. No meu caso eu não optei por tirar a licença maternidade a que tinha direito. Nisso a faculdade de Direito da PUC-Campinas respeita bem as mães. Podemos tirar os quatro meses, fazer alguns trabalhos em casa para compensar as faltas e não perder muito do conteúdo, e depois voltar normal. Como meu parto foi tranquilo e meus pais assumiram a responsabilidade de cuidar enquanto eu estava na aula, pude continuar com a faculdade. Mas ouço muitos relatos de mulheres que tiveram filhos e as universidades que elas estudam não deram o menor apoio ou chance de uma licença.

Para não dizer que tudo eram flores na PUC, ouvi comentários maldosos que vinham bem disfarçados, em forma de brincadeira e seguidos de um falso suporte do tipo “se precisar de ajuda me procure”. Eu acho que o machismo é tão incorporado na pessoa que ela não vê maldade no ato, ela acha isso normal. Talvez a pessoa nem se toque que está sendo cruel.

Teve uma aluna, na época que eu ainda estava na faculdade, que estava grávida e seu parto estava previsto para a mesma época das provas finais. Todos os professores deixaram que ela fizesse as provas alguns dias antes para sair de férias mais cedo, assim podia se preparar tranquilamente para o parto. Eu não sei que fim deu a história porque logo vieram as férias, mas ela disse que um professor estavam relutante em dar a prova antes porque o bebê nem tinha nascido ainda.

Hoje eu faço pós-graduação em Direito Contratual pela PUC São Paulo, mas as aulas são ministradas na PUC daqui. Como são aos finais de semana, nem sempre posso contar com alguém para ficar o sábado todo com a Isabela. Meus pais que ficam com ela para mim, eventualmente eles querem viajar ou fazer algo só eles, então eu a levo comigo na aula. Nunca tive problemas. As professoras sempre entenderam muito bem a situação e meus colegas de sala são tão legais que a Isabela adora ir junto na aula. Ela fica lá sentada com papéis desenhando, escrevendo, brincando em silêncio (ok, nem sempre é tão silêncio mas ela obedece quando mando ficar quietinha).

E quanto as mulheres que ainda não são mães, como fica a situação delas? Esses dias conheci uma menina que me confidenciou que não poderia engravidar nos próximos dois anos, e que só de pensar nisso já se desesperava. O motivo é que ela assinou um contrato com uma universidade pública, da qual ela ganha uma bolsa para fazer mestrado. Nesse contrato ela garante que não irá engravidar. Se isso acontecer ela perderá a bolsa.

Como advogada, mãe, mulher e ser humano eu quase chorei ouvindo isso. Se ela engravidasse o que a universidade poderia fazer? Um homem pode ter filhos durante o mestrado, uma mulher não? E se ela engravidar, a universidade sabe que aborto é crime, e mesmo que fosse legalizado, seria certo obrigar uma mulher abortar? O que eles querem que ela faça? Celibato? Métodos anticoncepcionais falham, e ter ou não ter um filho não é assunto de contrato. Essa decisão cabe somente ao casal.

Será que a PUC me deu a escolha de licença maternidade porque é particular, católica ou porque entende e respeita a realidade da mãe? Pelo tratamento que recebi, acredito que a PUC respeita a família. A maioria dos relatos absurdos que vejo são de universidades públicas, por isso que parabenizei a USP no texto. Parabenizei por ter feito o mínimo que seres humanos devem fazer, se respeitar, entender o outro e cuidar das pessoas. Finalizo deixando um link do FemMaterna bem interessante e didático (também enviado por essa leitora) sobre a ampliação de creches nas universidades.

 

2 comentários em “Mães que estudam

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  1. Muito boa matéria!! Tenho uma
    Amiga, médica , que relatou que as médicas sofrem muito preconceito no trabalho, tendo algumas dificuldades, e sendo negadas em algumas sociedades de médicos por causa do risco de engravidarem! Um grande absurdo! O preconceito de todos os tipos está presente em nossa sociedade, infelizmente! Mas sempre tem aqueles que lutam contrA , ajudando toda uma sociedade!! Parabéns a eles!! Cada um fazendo a sua parte viveremos em um mundo mais igualitário apesar de nossas diferenças!

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