O mérito não é da genética, é da criação!

Brinquedos organizados pela Isabela, cada caixa tem um tema.
Brinquedos organizados pela Isabela, cada caixa tem um tema.

Existe uma grande tendência das pessoas em achar que tudo da personalidade, hábitos e aprendizado são culpa da genética. Por exemplo, imagina um filho que todo dia dá trabalho para acordar. Alguns pais ensinam que isso não é uma opção. Outros ficam debatendo com a criança tentando convencê-la de ir para a escola. Ao debater e mostrar que pode ser que ela te convença, ela aprende que tem a escolha. Ela sabe que vai ter que ir de qualquer forma, mas pode ser que fazer um caos logo cedo dê certo e ela falte. Ao invés de ser firme e mudar o mal hábito instaurado, alguns pais falam que a criança puxou algum preguiçoso da família.

Pronto, já está ensinado. Ele pode reclamar logo cedo e se recusar a sair da cama. Os pais já deram para ele uma justificativa genética. Deram até um nome para o culpado, ou seja, não é culpa dele. E quem discute com a ciência? Ele já sabe que se ele insistir ele falta na escola.

Eu poderia citar mil exemplos: o da criança que se recusa a comer, o da criança desorganizada, o da criança que chora por tudo, e por aí vai. Vou citar os exemplos de casa e como resolvi.

Sempre que escrevo aqui, cito os exemplos que deram certo na minha vida como mãe. O que deu errado e eu ainda não achei a solução, não serve para passar adiante. Por isso insisto na importância da troca de experiências com outras mães. Praticamente tudo que faço e fiz com a Isabela foi porque alguém me ensinou.

Conversando com outras mães de filhos que não dão muito trabalho com manhas, birras e recusas com as obrigações, descobri que não sou a única que ouve as pessoas falando que dei muita sorte por minha filha ter nascido pronta.

Acontece que a Isabela nasceu como todos os bebês, indefesa e sem saber nada do mundo. Eu fui ensinando tudo e cada limite que ela testou eu mostrei até onde ela podia ir. Como todas as mães fizeram. Eu insisti muito nas lições diárias. Eu tive a paciência de repetir a mesma coisa várias vezes. Eu tive pulso de não voltar atrás de um “não” diante de uma manha. E assim por diante. Isso me fez uma mãe melhor que as outras? Não. Isso fez de mim a mãe que quero ser. É isso que importa dentro de cada família, você criar o filho como você acredita, e aceitar o filho que você criou.

Apesar de existirem diversas personalidades, a educação, o respeito, a cultura e os valores não são codificados geneticamente. A Isabela nunca soube que ela tinha a opção de faltar na escola porque está com sono, por isso ela nunca pediu para ficar em casa dormindo. Se eu a chamo logo cedo e ela diz que não quer acordar eu falo apenas que agora não é uma opção, tem que fazer e depois da aula ela pode dormir. Dei sorte? Não. Já fiquei com muito peso na consciência por ter deixado ela na escola com sono. Mas ela estava com preguiça e isso passa rápido. Como eu sei que era preguiça? Ela sempre teve no mínimo oito horas de sono, quase sempre chega a dez horas.

Esse período de sono faz parte de coisas que ela nunca soube ser opcional. Todos os dias 20:30 ela vai pra cama, querendo ou não (na maioria dos dias ela quer). Quando ela não quer, eu falo que não é uma questão de escolha, no dia seguinte ela vai levantar cedo e por isso é esse o horário de dormir. Se ela continua se recusando, eu digo que se não está com sono vai deitar até o sono vir. Nunca o sono deixou de vir, pois esse é um hábito. Você pode estar pensando “ah mas a sua filha nunca levantou da cama e fez birra para não dormir”. Quem disse que não? Levantou, tomou bronca e voltou pra cama. O tanto de vezes que ela levantou foi o tanto de vezes que eu a coloquei de volta com a voz firme e a ordem clara: vai dormir agora.

Lógico, dias excepcionais de medo ou doença eu dou um colo, coloco na minha cama, mas são dias raros. Se existem medos que não passam e doenças criadas com grande frequência é bom procurar ajuda de profissionais para orientar como proceder, isso pode virar um trauma ou ser fruto de algo mal resolvido internamente.

Nunca é tarde para novos hábitos. Muitas vezes eu vi que estava com hábitos ruins na vida da Isabela, ou na minha vida mesmo. O que fiz? Mudei. Dá trabalho. A gente cria mil dificuldades para não fazer algo novo porque o velho dá segurança. Mas muitas vezes é preciso. A Isabela dormia as 21:30 quando era bebê, e assim foi até chegar no primeiro ano da escola e começar a entrar muito mais cedo. No começo ela não quis aceitar o novo horário de dormir, que seria uma hora mais cedo. Mas eu não dei a opção aceita ou não, essa é a nova regra e tem motivos. Expliquei bem sobre a qualidade do sono e a importância disso. Ela demorou, eu insisti muito e ela se adaptou.

A Isabela é organizada com as coisas de escolas, brinquedos e roupas (ok, roupas nem sempre). Desde que a Isabela começou a entender as coisas eu a ensino a guardar e a ajudar. Ela começou a ir na escola com um ano e meio. Desde o primeiro dia de aula eu a ensinei a arrumar a malinha, a lancheira e a tirar as coisas da lancheira quando chega em casa. Como ensinei: eu ia fazendo e mostrando para ela. Como toda criança ela quis começar a fazer também. O que ela dava conta eu a deixava assumir. A partir do momento que assumiu, faz sempre. Assim ela foi crescendo e até hoje, todos os dias, ela chega da escola e coloca todas as coisas da lancheira em cima da pia, os livros e cadernos na escrivaninha e assim por diante.

Os brinquedos são guardados por tema. Isso não é nenhuma doença de organização extrema, é só para facilitar na hora de brincar, Pollys em uma caixa, Barbies em outra, e assim ela sempre sabe onde encontrar o que precisa. Não é mágica, é paciência. Todo dia tem que arrumar o quarto antes de dormir. Fez manha, birra, se recusou? Vai arrumar do mesmo jeito com a diferença que ficará de castigo por ter feito malcriação.

Já vi muita mãe me chamar de malvada e durona porque não abri exceção no castigo ou porque não deixei a Isabela faltar em compromissos para brincar com as amigas durante semana. Eu não considero maldade ensinar o que eu acho certo. Compromisso e obrigação não tem exceção. Existe férias, final de semana e muito tempo livre mesmo durante semana, não é na hora do castigo ou do compromisso que vai brincar.

Ajudar na casa faz parte da dinâmica familiar. Um cozinha, outro coloca a mesa, outro limpa. Cada um cuida das suas coisas. Esses dias a Isabela estava vendo TV e a chamei na cozinha para o jantar. Enquanto a minha mãe tirava as panelas do fogão para servir, eu estava pegando os talheres e falei para a Isabela pegar os pratos. Ela me olhou e perguntou com um ar de desafio “por que eu?”. Eu podia ter falado “porque sua vó está servindo a comida e eu estou pegando os talheres”. Mas ela já sabia essa resposta. Ela já sabe que é assim que funciona em casa. Então falei em um tom firme “porque eu sou sua mãe e estou mandando você por os pratos na mesa”. Acabou a conversa. Não tem que dar espaço para a criança ter dúvidas de quem está no comando. Se fosse uma regra nova, um hábito novo eu explicaria. Nesse caso eu sei que foi o desafio do limite. O querer questionar para tentar se safar do ajudar nas tarefas da casa para continuar vendo TV.

Esses são alguns exemplos de situações que ouço falarem que dei muita sorte em ter uma filha obediente e que a genética é boa. Que devo levantar as mãos para o céu todo dia. Eu agradeço pela filha, por ter saúde, por ser esperta e tudo mais. Mas o resto é fruto do suor e paciência. Quantas vezes eu não quis largar tudo do jeito dela só para não me estressar ou para não ouvir que sou chata? Já ouvi muito que outras mães são mais legais e mais boazinhas. Mas prefiro suar para educar do que ficar sentada culpando meus ancestrais por não terem passado o cromossomo da criança perfeita. Como eu sempre digo para a Isabela: você tem duas opções, fazer do jeito certo numa boa ou fazer do jeito certo depois de levar uma bronca e conversarmos muito sobre essa manha feia. Ela sempre escolheu fazer numa boa sem estresse. Aí é a hora que eu levanto a mão para o céu e agradeço por ela ser inteligente.

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