Prêmio: Não fez mais que a obrigação

Semana passada algumas seguidoras me mandaram uma matéria sobre um pai que cuida da filha sozinho. A história era algo sobre a mãe ter abandonado a bebê e o pai ter assumido a criação da filha. Eu fico me perguntando o que tem de especial nisso, todo dia bebês são abandonados pelos pais. A minha filha mesmo, o pai optou por não fazer parte e fingir que não nos conhece quando nos vê na rua. Isso acontece com inúmeras crianças todo dia.

Quando uma mãe cria seu filho sozinha, não vira notícia, ninguém percebe, e muitas vezes, quando percebe, diminuem essa mulher por estar só. Muitas mães criam seus filhos sozinhas mesmo sendo casadas com os pais das crianças. Quando um pai cuida do filho, troca fralda, dá banho, prepara a comida, leva para passear, esse pai não está fazendo um favor para ninguém, ele está fazendo a parte dele. Temos que quebrar essa ideia maluca de que filho é responsabilidade só da mãe e que pai que participa merece prêmio ou reconhecimento.

No caso citado, do cara que cuida de sua filha sozinho, não faz mais que a obrigação! O que ele iria fazer? Largar para outra pessoa criar ou abandonar também? Até poderia fazer isso, e tenho certeza que se o fizesse, as pessoas ainda iam culpar a mãe por essa criança estar sozinha no mundo, ninguém ia lembrar que o pai também abriu mão.

A maluquice de que o pai não precisa participar é tão grande que sempre vejo pessoas postando fotos com a legenda “não basta ser pai, tem que participar”, penso que li algo de como para ser pai basta engravidar a moça, mas participar é uma opção extra. Tipo “não basta ir ao Mc Donald’s, tem que pedir o combo com batata grande”. Não meu caro, participar não é um plus, está embutido no papel de pai.

Imagina se as mães pensassem assim? Não basta ser mãe, tem que trocar fralda, tem que alimentar, tem que pegar no colo… Seria insano se todos achassem que ao escolher ter o filho, cuidar e criar é uma opção. O que precisamos é ter noção do quanto isso é puxado. Todos devem participar da criação do filho.

Como advogada que atua na área do Direito de Família, vejo muitos homens falarem que não tem contato com os filhos, ou que não tem uma maior proximidade, por conta da mãe impedir tal relação. Como mãe que sempre criou a filha sozinha eu posso dizer que o mais fácil e ideal é ter um pai ao lado, cuidando, participando, revezando. Filhos são a melhor coisa, mas cansa, dá trabalho e tem hora que queremos sumir por algumas horas.

Quando ouço essa reclamação e converso com a mãe da criança, a grande maioria me mostra que nunca impediu nada, o cara que não apareceu no dia de visitas, ou ainda, quando a visita é quinzenal, o pai não ligou nenhuma vez nesses quinze dias para saber como estava a criança ou se ela precisava de algo. Depois o folgado aparece, posta fotinho com o filho durante um passeio e coloca legenda de pai participativo.

Pior que isso, só os pais que moram na mesma casa e não participam de nada. Quando trocam uma fralda querem ganhar parabéns e jogam isso na cara da esposa durante semanas. Lógico que aqui exagero para ilustrar, mas tem pais que trocam algumas fraldas, dão algumas refeições, mas sempre no formato ajuda e não no formato participação. Somente o faz se a mãe não puder fazer.

Muita gente justifica essa loucura dizendo que a mãe cria um laço com o bebê desde a barriga, que mãe é diferente, mulher tem mais paciência, enfim, os motivos para postergar a paternidade são vários, e muita mulher os engole. Acontece que existem crianças que foram adotadas e a mãe tem exatamente o mesmo amor e mesmo laço que tem com o filho gerado, coisa que o pai poderia ter criado também. Além do que, nem toda mãe ama desde a barriga, muitas mulheres aprendem a amar seus filhos depois que eles nascem, cada um no seu tempo. Quem quer faz, quem não quer inventa desculpas.

Temos que parar de enaltecer o pai que não faz mais que a obrigação. Os filhos são responsabilidades dos dois. Se você está casada com um cara que não quer participar da criação dos filhos, está na hora de rever os objetivos e motivos desse casamento. Não dê o prêmio “não fez mais que a obrigação” para ele, aplaudir o cara a cada troca de fralda é absurdo. Pensa se fosse inverso, se o pai parabenizasse a mãe cada vez que ela faz algo pelo filho.

Quando você ver algum pai se gabando por ser participativo ou uma mãe exibindo o paizão do filho como se ela tivesse a sorte do cara dar papinha pra criança enquanto ela foi ao banheiro, mostre que isso é o mínimo e que todos deviam fazer igual. Vamos criar a cultura da família participativa, qualquer mudança começa de dentro para fora, comece você mostrando que o filho cabe aos dois. Ao invés de enaltecer quem ajuda, vamos passar a agradecer pelo trabalho em equipe bem sucedido.

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