Ensinar o respeito

Esses dias fomos aterrorizados pela imagem de um estupro coletivo, mas não vou falar do caso em si, só que pensando nisso, como mãe, mulher e ser humano preciso falar de três assuntos que considero muito sérios. Dividi o assunto em três temas que serão postado aqui aos poucos. O primeiro que trato aqui é um pedido para nós, mães e pais pararmos de criar o machismo dentro de nossas casas.

Fica fácil reclamar do machismo, do estuprador e se indignar, mas precisamos antes, entender que o estupro e a falta de respeito em público são uma manifestação mais extravasada do machismo. Primeiro vamos esclarecer que machista não se torna machista quando vira adulto. O machismo não é uma exclusividade dos homens e muito menos uma obrigação generalizada masculina. Precisamos sim ensinar nossas filhas a se defender e se proteger da agressão contra a mulher, vivemos em uma sociedade em que isso é um perigo real, próximo e recorrente. Mas também precisamos ensinar nossos filhos a não agredir as mulheres.

Vejo muitos adultos que quando querem puxar assunto com os meninos perguntam “e as namoradinhas?”. Também é comum falaram para a Isabela, “você é tão bonita, vai dar trabalho para a mamãe”. Por que incentivar o menino a ter namoradinhas e ensinar a menina que moça bonita dá trabalho em casa? Isso é tão errado!

Sabe aquele papo “veja como um homem trata sua mãe que será assim que ele irá te tratar?”, então, eu só aprendi que isso é real quando senti na pele. Namorei um cara que tratava a mãe dele muito mal e comigo ele era educado e legal. Depois de um tempo ele passou a me tratar pior do que tratava a mãe, nesse relacionamento eu só ganhei danos e traumas.

Fico me perguntando como que podemos ensinar a igualdade e o respeito para nossos filhos, e nunca chego a uma conclusão fácil. Eu sempre falo para a Isabela sentar de perna fechada, falo que calcinha e cueca não podem ser mostrados. Mas a verdade é que eu morro de medo de quem pode ficar olhando para a minha filha, e tenho certeza que se ela fosse menino eu não ia falar tanto sobre sentar de forma educada.

Acredito que a família é uma equipe onde todos participam do funcionamento da casa. Reclamar que seu marido não ajuda na casa ou com os filhos e não mudar nada na dinâmica familiar só ensina para as crianças que é assim que funciona. Lembre-se sempre que casa e filhos são responsabilidades dos pais. O certo é que se um cozinha, o outro limpa, cada um guarda suas coisas e por aí vai. Um dia as crianças vão crescer e sair de casa, eles precisam saber se virar.

Nossos filhos precisam saber que quando se casarem não estarão encontrando uma nova mãe e um novo pai, mas sim uma companheira e um companheiro. Os filhos são uma obra conjunta dos pais que, casados ou não, devem saber que as crianças são responsabilidades de ambos. Não vale querer dividir só o valor da pensão alimentícia, crianças precisam de amor, carinho e cuidado e isso é dever dos pais.

Já vi pais reclamarem ou fazerem piadas que seus filhos quando sentem fome ou precisam de algo, só pedem para a mãe, mas por que será que quando o filho pede algo, eles não falam “deixa que o papai pega”? A iniciativa de como criar um filho é dos pais e não das crianças.

As crianças nos imitam, ao crescer em um lar que os homens vivem como reis e as mulheres passam o dia os servindo, fica em seu inconsciente qual o seu papel. A criança observa como os pais tratam um ao outro e, talvez, essa será a base de seus relacionamentos na sua vida adulta. O importante é dar o exemplo, procurar ser para seus filhos o que você quer que eles sejam no futuro.

Quando eu tinha 9 anos eu estudava em uma escola que na minha sala de aula tinham 25 meninos e 5 meninas. Todas as broncas que eu tomei naquela escola começaram com a frase “isso não é coisa de menina”. Não foi coisa de menina o dia que bati em um garoto que estava em importunando, quando respondi a um professor que foi grosseiro comigo ou quando matei aula para brincar no pátio. Também não era coisa de menina pular no gira gira quando ele já tinha começado a girar, minha letra não era letra de menina e não era coisa de menina falar muito alto. Lembro que isso tudo me assustou, eu pensava que talvez eu não fosse muito menina, eu gostava de bagunçar e gritar. Me calei e retrai por um bom tempo.

Saí dessa escola aos 13 anos com a mensagem de que os meninos podiam zoar, as meninas não. Eu demorei para me livrar desse medo de não ser menina. Rosa sempre foi minha cor favorita, como era cor de menina, passei a usar cada vez mais rosa para todos verem que eu era menina.

Adultos devem saber que brincadeira de criança não tem nada a ver com sexo ou gênero. Meninos que jogam bola e meninas que se vestem de princesa não estão aprendendo a se sentir atraídas sexualmente pelo sexo oposto, estão apenas brincando. Da mesma forma que um menino brincar de boneca ou uma menina brincar de carrinho não os faz crescer desejando alguém do mesmo sexo. As brincadeiras não estão nada ligadas a isso.

Brincar é se desenvolver, é trabalhar coordenação motora, convivência com outras crianças, reproduzir o que viram na vida real e estimular suas criatividades. Não podemos deixar uma pessoa crescer emocionalmente perturbada só porque ela gosta de algo que achamos que não condiz com sua sexualidade. Aliás, quem somos nós para definir sexualidade alheia?

Devemos cortar aquela conversa sobre filha princesinha e delicada que precisa de um namorado que a proteja, e do papo de que se seu filho chegar em casa com uma piriguete você vai por pra correr. Temos que ensinar nossos filhos o respeito, que a roupa não é convite para violência e muito menos que aparência é o que conta. Já sofri com o machismo na mão de gente bem vestida e de gente mal vestida, em festa de elite e no transporte público.

Faça um exercício, feche os olhos e pense: Como você gostaria de ser tratada por todos quando sai na rua, quando está no trabalho e quando está com a sua família. Ensine seu filho e filha a tratarem as pessoas assim. Ensine seus filhos que somos iguais, ensine o respeito e os prepare para uma vida adulta onde qualquer um pode ser o que quiser. Vamos lembrar que o machismo existe e só vai acabar quando nós acabarmos com isso.

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